Depois de transformar uma viela da Vila de Ponta Negra em uma sala de cinema a céu aberto durante sua experiência-piloto, o Cine Beco Itinerante terá novas edições em Natal, iniciando ainda em 2026. A ampliação tornou-se possível após a aprovação de projeto viabilizado por recursos de fomento vinculados à Política Nacional Aldir Blanc (PNAB) e marca uma nova etapa da iniciativa desenvolvida pela V Vídeo em parceria com o coletivo Batalha da Gruta.
As duas comunidades que receberão as próximas edições serão anunciadas posteriormente. Desta vez, porém, a chegada do Cine Beco aos territórios começará antes da montagem da tela, dos equipamentos de projeção ou do início dos filmes.
A proposta prevê um trabalho de pré-produção desenvolvido diretamente dentro das comunidades, envolvendo escolas públicas, organizações não governamentais, instituições filantrópicas, lideranças e conselhos comunitários. A intenção é estabelecer parcerias locais que auxiliem tanto na divulgação quanto na aproximação da programação com crianças, jovens, famílias e demais moradores.
Nas escolas, a mobilização deverá envolver contatos com coordenações e professores para apresentar previamente a proposta e convidar os estudantes. Organizações que já atuam socialmente nos territórios também deverão participar dessa articulação.
A mudança representa um dos principais aprendizados deixados pela experiência-piloto. Se a primeira ação serviu para testar a possibilidade de transformar um beco residencial em espaço de cinema, as novas edições avançam para um modelo no qual a construção de público começa antes do evento.
Divulgação começa dentro da própria comunidade
A mobilização territorial também será ampliada.
Nos três dias anteriores a cada edição, equipes deverão circular pela comunidade realizando panfletagem e contato direto com moradores. A divulgação prevê ainda a instalação de cartazes em pontos estratégicos, utilização de carro de som, articulação com rádios comunitárias quando houver emissoras com alcance na região e participação de comunicadores, parceiros e influenciadores locais.
A estratégia procura evitar que a divulgação dependa exclusivamente das redes sociais.
Em um projeto pensado para acontecer dentro dos bairros, o convite também precisa acontecer fisicamente no território. A informação deve chegar a quem acompanha redes digitais, mas também ao morador que está na calçada, ao estudante dentro da escola, ao comerciante, às famílias atendidas por instituições locais e às pessoas que circulam diariamente pelas ruas da comunidade.
Essa aproximação se conecta à própria finalidade estabelecida pela Política Nacional Aldir Blanc. A Lei nº 14.399/2022, responsável pela criação da política, determina entre seus objetivos a democratização do acesso à produção e à fruição artística e cultural, incluindo expressamente as áreas periféricas, urbanas e rurais.
Nas novas edições do Cine Beco, essa descentralização ocorre de maneira literal: a estrutura cultural deixa os espaços convencionais de exibição e entra nas ruas residenciais.
Antes do cinema, um cortejo pelas ruas
A principal novidade de 2026 acontecerá antes mesmo do início oficial da programação.
No dia de cada edição, por volta das 16h ou 16h30, moradores começarão a receber um último convite para o Cine Beco. Dessa vez, porém, ele chegará acompanhado de música.
Um cortejo cultural deverá percorrer durante aproximadamente uma hora as ruas da comunidade que receberá a sessão. A previsão é reunir equipe técnica, integrantes do coletivo Batalha da Gruta, artistas convidados e moradores em um percurso festivo acompanhado por músicos em uma formação inspirada nas tradicionais bandas de rua e de frevo.
O repertório pretende estabelecer uma relação entre cultura popular e audiovisual, incluindo músicas reconhecidas do imaginário cinematográfico ao lado de sonoridades regionais.
Durante o percurso, a equipe distribuirá material de divulgação, conversará diretamente com moradores e fará o convite para a programação que acontecerá algumas horas depois. Um carro de som acompanhará a mobilização.
A expectativa é reunir inicialmente entre 20 e 30 pessoas no cortejo, número que poderá crescer à medida que o grupo atravesse as ruas e convide moradores a acompanhar a movimentação.
À frente estará outro elemento criado especialmente para essa nova fase: o estandarte do Cine Beco.
Carregado durante o percurso, o estandarte funcionará como símbolo visual da iniciativa e da proposta de fazer o cinema potiguar circular por ruas, becos e vielas de comunidades populares.
Nesse formato, o Cine Beco não começa quando o primeiro filme aparece na tela.
Começa quando a música entra na rua.
Cultura popular abre espaço para o cinema
Outra mudança está prevista para o início da programação noturna.
Antes da primeira obra audiovisual, cada edição deverá receber uma manifestação ligada à cultura popular nordestina, conduzida por artista convidado. Cordel, sanfona, oralidade, humor e expressões linguísticas regionais estarão entre os elementos que poderão fazer parte dessa abertura.
A intenção é estabelecer uma passagem entre diferentes linguagens.
O espectador chega a uma rua que foi transformada temporariamente em espaço cultural, encontra primeiro uma manifestação artística realizada presencialmente e, posteriormente, acompanha a programação audiovisual.
O cinema deixa, assim, de funcionar isoladamente e passa a integrar uma programação formada por diferentes expressões culturais.
A escolha também reforça um princípio presente desde a experiência anterior: fazer com que a programação dialogue com manifestações próximas do público e com artistas que possuem relação com os territórios onde as ações são realizadas.
Uma tela voltada ao cinema independente potiguar
No centro do projeto permanece a exibição audiovisual.
O Cine Beco foi concebido para ampliar a circulação de obras do cinema independente potiguar, com atenção especial a produções que apresentem personagens negros e periféricos em posições de protagonismo.
Na experiência realizada na Vila de Ponta Negra, episódios da websérie “Pinta: Um Guia Arroxado” integraram a programação. A obra acompanha um jovem negro periférico de Natal que ocupa o centro da narrativa e utiliza seu conhecimento da cidade, seu dialeto e sua identidade cultural como elementos fundamentais da história.
A mesma ação também possibilitou a apresentação pública do videoclipe “Essa Eu Fiz”, primeiro trabalho musical produzido de MC AK-2, morador da própria Vila de Ponta Negra.
O projeto parte do entendimento de que democratizar o acesso ao audiovisual envolve duas dimensões.
A primeira é permitir que pessoas que nem sempre frequentam salas convencionais possam assistir gratuitamente a produções cinematográficas.
A segunda é discutir quem essas pessoas encontram quando olham para a tela.
Para jovens negros moradores de bairros populares, a presença de personagens que compartilham referências territoriais, linguísticas e sociais pode aproximar a produção audiovisual de experiências que fazem parte de seu cotidiano.
Hip-hop permanece como uma das linguagens do Cine Beco
Se a cultura popular deverá abrir a programação, o hip-hop continuará ocupando parte importante da segunda metade de cada edição.
A parceria com o coletivo Batalha da Gruta será mantida e ampliada.
Além das tradicionais batalhas de rima entre MCs, as novas edições deverão incorporar o slam, linguagem baseada na poesia falada e performática, e o breaking, manifestação da cultura hip-hop construída a partir da dança.
A programação também deverá reservar espaço para um pocket show de artista periférico, prioritariamente ligado à comunidade ou ao circuito independente local.
A proposta é permitir que um jovem artista encontre no Cine Beco não apenas um lugar para assistir a outras obras, mas também um palco onde possa apresentar a sua própria produção.
Essa integração entre audiovisual e hip-hop procura estabelecer uma relação direta com o público jovem sem transformar as linguagens em atrações isoladas.
Cinema, música, poesia, dança e batalha passam a ocupar a mesma rua.
Quando o fomento chega aos territórios
A realização das duas novas edições também coloca em evidência o papel das políticas públicas de cultura na viabilização de atividades que dificilmente conseguiriam ser realizadas com a mesma estrutura apenas com recursos próprios.
Dados divulgados pelo Ministério da Cultura em 2026 mostram a dimensão alcançada pelas ações afirmativas no primeiro ciclo da Política Nacional Aldir Blanc. Segundo levantamento do MinC, 49,3% dos recursos destinados aos estados, Distrito Federal e capitais foram direcionados a ações afirmativas, somando mais de R$ 800 milhões. Desse conjunto, aproximadamente R$ 134,7 milhões foram mobilizados especificamente por editais destinados a grupos ou territórios em situação de vulnerabilidade social.
O levantamento identificou ainda editais direcionados especificamente a territórios periféricos, infância e juventude, pessoas negras, povos indígenas, pessoas com deficiência e outros segmentos historicamente sub-representados no acesso aos mecanismos públicos de cultura.
No caso do Cine Beco, o recurso permite ampliar uma experiência que anteriormente possuía caráter experimental.
Com maior estrutura, torna-se possível planejar antecipadamente a mobilização, remunerar profissionais e artistas, estabelecer articulações territoriais, organizar cortejo, comunicação comunitária, programação audiovisual e apresentações culturais.
O investimento público não está, portanto, apenas na montagem de uma tela.
Está na possibilidade de construir toda uma experiência cultural ao redor dela.
Da porta de casa para o centro da programação
A lógica das novas edições continuará sendo a mesma que deu origem ao projeto: fazer o cinema chegar até onde as pessoas estão.
O Cine Beco não exige que o morador compre ingresso ou atravesse a cidade para chegar até uma sala comercial. Dependendo de onde vive, ele poderá encontrar a programação ao sair de casa.
Uma criança pode assistir sentada ao lado dos pais.
Um jovem pode chegar atraído pela batalha de rima e terminar assistindo a um filme potiguar.
Outro pode conhecer o breaking.
Alguém que nunca acompanhou uma apresentação de poesia falada pode encontrar o slam.
Um morador mais velho pode reconhecer no cordel, na sanfona ou nas expressões regionais elementos de sua própria memória cultural.
E um artista que ainda circula apenas dentro de seu bairro pode encontrar um público diante de um palco montado dentro da própria comunidade.
Essa combinação transforma o Cine Beco em algo que ultrapassa a definição convencional de mostra cinematográfica.
O cinema é o ponto de encontro.
Ao redor dele estão a música, a cultura popular, a poesia, a dança, a formação de público, a memória do território e a possibilidade de moradores ocuparem simultaneamente os lugares de espectadores e artistas.
Quando o cortejo atravessar as ruas carregando o estandarte do Cine Beco em 2026, a mensagem que antecederá as sessões será também a síntese do projeto: o cinema potiguar não precisa esperar que a periferia vá até ele. Ele também pode atravessar a cidade e chegar até a periferia.