agosto 11, 2026

De uma letra escrita no papel à tela: “Essa Eu Fiz”, de MC AK2, transforma vivências da Vila de Ponta Negra em rap e cinema

Uma entrevista para um documentário terminou de uma maneira que a equipe não havia planejado. Depois de falar sobre trabalho, juventude, família e sua relação com a Vila de Ponta Negra, em Natal, Alisson Joabson Rocha Martins, conhecido nas batalhas de rima como MC AK2, revelou que guardava letras autorais que nunca haviam chegado a um estúdio de música. Uma delas estava escrita no papel.

Ao final da gravação, ele recitou a composição.

Aquele momento deu origem a “Essa Eu Fiz”, primeira música autoral produzida profissionalmente por MC AK2 e, posteriormente, ao primeiro videoclipe de sua trajetória. Documentos do projeto registram que a equipe identificou durante as entrevistas um MC que escrevia as próprias letras, mas que ainda não tinha acesso aos meios necessários para transformá-las em uma produção musical finalizada.

A descoberta aconteceu durante a produção de “A Ponta que é Negra”, documentário independente iniciado em 2023 e ainda em desenvolvimento. O filme parte das histórias de trabalhadores ligados à Praia de Ponta Negra, com atenção especial à população negra e aos moradores da Vila de Ponta Negra, comunidade histórica situada ao lado de uma das regiões turísticas mais conhecidas do Rio Grande do Norte.

O contraste é um dos elementos centrais da produção. De um lado estão a praia, o Morro do Careca, os hotéis, restaurantes e a imagem turística projetada nacionalmente. Do outro estão pessoas que trabalham diariamente na atividade econômica da região, moram no território e nem sempre ocupam o mesmo espaço de visibilidade nas narrativas produzidas sobre Ponta Negra.

Essa relação entre turismo e comunidade permanece atual. Em 2026, a própria Secretaria Municipal de Turismo incluiu a Vila de Ponta Negra entre as experiências mapeadas para o desenvolvimento do Turismo de Base Comunitária em Natal, iniciativa que busca valorizar moradores, tradições, saberes e atividades econômicas dos próprios territórios. A UFRN também tem produzido pesquisas e obras audiovisuais voltadas às transformações sociais, urbanas e ambientais da Vila e às atividades tradicionais ligadas à praia.

Foi dentro desse cenário que a história de MC AK2 deixou de ser apenas uma entrevista de documentário para ganhar uma produção própria.

Seis semanas para tirar uma música do papel

MC AK2 já tinha relação com o rap e participava de batalhas de rima, mas ainda não havia passado pelo processo completo de produção de uma música autoral.

Depois da entrevista, a equipe decidiu desenvolver a composição de maneira independente. Durante aproximadamente seis semanas, encontros periódicos foram utilizados para testar interpretação, gravação e estrutura musical até que aquilo que existia apenas na escrita adquirisse a forma de uma faixa produzida.

A produção musical ficou a cargo de Breno Vieira, que posteriormente também integrou a equipe audiovisual do videoclipe. Os registros públicos da produção creditam Vieira pela produção musical e Rafael Maurício pela direção, com Tupan Diego na codireção e direção de fotografia e Kaiony Venâncio na preparação artística.

O processo tinha uma característica incomum: não existia, naquele primeiro momento, um projeto previamente financiado para lançar um novo artista. A música nasceu como consequência de uma escuta realizada durante outro trabalho audiovisual.

O passo seguinte foi tentar criar condições para que ela também ganhasse imagens.

A proposta apresentada a um edital da Lei Aldir Blanc defendia justamente a utilização do videoclipe como instrumento para dar visibilidade às experiências de moradores negros da Vila de Ponta Negra, relacionando música, grafite, paisagem, desigualdade social e juventude.

O projeto foi selecionado com recursos públicos de fomento cultural. O relatório final de execução registra R$ 12 mil em recursos destinados à produção.

Para um artista que até pouco tempo antes possuía apenas uma letra escrita, a aprovação significava a possibilidade de transformar aquela composição em uma obra audiovisual realizada com estrutura profissional.

A praia onde trabalha passa a ser cenário para o artista

A escolha das locações procurou evitar uma representação genérica da periferia.

Antes das filmagens, foram realizadas visitas técnicas à Vila e à Praia de Ponta Negra para identificar lugares capazes de dialogar com diferentes passagens da composição. O projeto previa becos, vielas, a orla e áreas ocupadas por grafites, entendidos visualmente como parte da expressão urbana presente no território.

O contraste era deliberado.

A praia aparece como lugar de trabalho e como um dos principais cenários turísticos da cidade. Os becos e vielas deslocam a imagem para o território onde vivem os moradores que integram essa economia. Os muros grafitados introduzem outra linguagem produzida nas cidades. A área da igreja da Vila, por sua vez, foi incorporada à decupagem em cenas relacionadas a fé, esperança, escolhas e moralidade.

O objetivo visual era colocar lado a lado espaços que pertencem à mesma região, mas normalmente aparecem separados na representação turística de Natal.

Em uma das primeiras imagens, o público encontra o trabalhador.

Depois encontra o artista.

MC AK2, acostumado ao cotidiano de trabalho na região de Ponta Negra, passa a ocupar a mesma paisagem diante das câmeras como protagonista de uma obra musical.

Essa mudança de posição é uma das ideias mais fortes do videoclipe. Não se cria um personagem fictício para falar sobre a periferia. É um morador da própria comunidade interpretando uma música baseada em experiências que conhece.

Antes das câmeras, preparação artística

Havia, porém, um desafio.

Participar de batalhas de rima não significa automaticamente estar preparado para executar uma performance repetidas vezes diante de câmeras, marcações, lentes e movimentos previamente planejados.

Por se tratar do primeiro videoclipe de MC AK2, foi realizada uma etapa de preparação artística no Estúdio da V Vídeo com o ator e preparador de elenco Kaiony Venâncio. O trabalho foi desenvolvido antes das gravações para oferecer ao artista ferramentas de interpretação, presença diante da câmera e compreensão das necessidades de repetição e continuidade próprias de um set audiovisual. O relatório final registra formalmente essa preparação.

Equipe artística e executiva do projeto

A direção ficou com Rafael Maurício, enquanto Tupan Diego assumiu a codireção e a direção de fotografia. A equipe ainda reuniu profissionais de produção, câmera, assistência de fotografia e making of.

Embora o planejamento inicial previsse uma operação menor, a execução foi ampliada. O relatório entregue após a conclusão registra quatro diárias de gravação, aproximadamente nove profissionais no set e participação de figurantes da própria comunidade.

Essa presença dos moradores também interferiu no resultado visual.

Parte da figuração utilizada para representar infância, adolescência e relações familiares foi formada por pessoas ligadas ao próprio território. Em vez de utilizar a Vila apenas como cenário, o processo procurou inserir seus moradores dentro da imagem.

Família, trabalho e ausência de oportunidades atravessam a música

“Essa Eu Fiz” não é construída como uma narrativa individual de sucesso.

A composição observa principalmente aquilo que acontece ao redor do artista.

A letra recupera memórias de infância, amigos que morreram, jovens que tomaram caminhos diferentes, dificuldades financeiras, trabalho precário, mães que precisam sustentar a família e, ao mesmo tempo, criar os filhos, além da sensação de que oportunidades básicas permanecem distantes de parte da juventude periférica. O texto original também associa a falta de oportunidades à entrada de adolescentes e jovens em circuitos de violência e criminalidade.

A presença da mãe solo na narrativa, por exemplo, não aparece apenas como elemento dramático. A música questiona uma estrutura em que o próprio trabalho necessário à sobrevivência reduz o tempo disponível para acompanhar os filhos.

O videoclipe transforma esses temas em situações visuais envolvendo famílias, mulheres, crianças e adolescentes.

São questões que encontram correspondência em indicadores nacionais.

Segundo o Atlas da Violência 2026, elaborado pelo Ipea e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 19.801 pessoas entre 15 e 29 anos foram vítimas de homicídio no Brasil em 2024. Jovens representaram 46,5% das vítimas de homicídio registradas naquele ano. O mesmo levantamento aponta que 77% das vítimas de homicídio em 2024 eram negras.

A desigualdade também aparece antes de qualquer situação de violência.

Dados do IBGE mostram que 8,7 milhões de brasileiros de 14 a 29 anos não haviam concluído o ensino médio em 2024. Entre eles, 72,5% eram pretos ou pardos. A necessidade de trabalhar foi apontada como principal motivo para o abandono ou a não frequência escolar por 42% dos jovens pesquisados e por 53,6% dos homens nessa situação.

No mercado de trabalho, boletim do Ministério do Trabalho e Emprego apontou taxa de informalidade de 44,1% entre homens negros no segundo trimestre de 2024, diante de 34,6% entre homens não negros.

Os indicadores ajudam a dimensionar o ambiente social tratado pela música sem transformar a experiência de MC AK2 em representação automática de todos os jovens negros ou periféricos.

A obra parte de uma história particular.

Os números mostram que parte das questões presentes nela ultrapassa essa história.

Um jovem negro também enfrenta barreiras para ocupar a própria cidade

A própria circulação pelo espaço urbano é atravessada por desigualdades.

Uma dissertação de mestrado defendida na UFRN em 2023 ouviu 100 jovens negros de Natal, entre 18 e 24 anos, para analisar sua relação com os espaços da cidade. A pesquisa identificou que o racismo interfere nesse processo e pode fazer com que jovens negros se sintam impedidos ou evitem frequentar determinados lugares.

Esse dado ajuda a compreender uma das escolhas simbólicas de “Essa Eu Fiz”.

MC AK2 não é deslocado para um cenário distante ou artificialmente sofisticado para se tornar artista.

Ele permanece em Ponta Negra.

A praia, a Vila, os muros, as vielas e as ruas passam a ser suficientes para construir sua imagem como rapper.

A periferia deixa de funcionar apenas como explicação para problemas sociais e passa a ocupar também o campo da criação estética.

O grafite não aparece exclusivamente como textura de fundo. Ele estabelece visualmente um encontro entre duas imagens de Ponta Negra: a paisagem exportada para o turismo e uma linguagem artística produzida no ambiente urbano por pessoas que habitam a cidade.

O número 2 e uma história de segunda chance

Uma das histórias mais pessoais ligadas à música envolve o irmão de MC AK2.

Documentos apresentados no próprio projeto relatam que Alisson, por meio do trabalho, conseguiu oferecer uma oportunidade ao irmão depois que ele deixou o sistema prisional, contribuindo para que pudesse se afastar de um contexto de violência.

Essa experiência também ajuda a compreender o nome artístico.

Segundo MC AK2, o número 2 representa a ideia de uma segunda chance.

O conceito deixa de funcionar apenas como construção de identidade artística e encontra correspondência na experiência familiar que atravessa a obra: alguém pode errar, cumprir as consequências de suas escolhas e ainda encontrar possibilidade de reconstrução.

Essa história ganharia uma dimensão pública no lançamento do videoclipe.

O lançamento acontece praticamente em frente à casa do artista

Depois das filmagens, montagem, correção de cor, animação e finalização, “Essa Eu Fiz” poderia ter sido apresentado apenas pela internet.

A escolha foi outra.

O lançamento público integrou a primeira edição do Cine Beco Itinerante, projeto que transformou uma viela da Vila de Ponta Negra em cinema a céu aberto.

A localização tinha um significado especial: a exibição aconteceu em frente ou muito próxima à residência de MC AK2, fazendo com que familiares, amigos, vizinhos e outros moradores assistissem à produção no próprio território onde ela havia sido criada e filmada. O relatório de execução estima um público de aproximadamente 200 pessoas, majoritariamente formado por moradores da comunidade.

A sessão não terminou quando o clipe acabou.

MC AK2, familiares e integrantes da produção conversaram com o público sobre as situações retratadas na obra.

Entre os participantes estava seu irmão.

Diante dos moradores, ele relatou sua própria trajetória, a passagem pelo sistema prisional e a oportunidade que recebeu para reconstruir a vida por meio do trabalho. O relatório do projeto registra que essa história está diretamente ligada à inspiração da obra e que o depoimento se transformou em um dos momentos de troca com o público.

O que estava na letra voltou, portanto, para a vida real.

A narrativa audiovisual abriu espaço para que uma pessoa envolvida diretamente naquela história assumisse o microfone e falasse com crianças, adolescentes e adultos do mesmo território.

E os dois irmãos chegaram à final da batalha de rima

Depois do cinema e da conversa, veio o hip-hop.

A programação do Cine Beco contou com batalha de rima realizada em parceria com a Batalha da Gruta. O episódio produziu uma situação que dificilmente poderia ter sido roteirizada: MC AK2 e o próprio irmão chegaram à final da disputa.

O relatório de execução registra que participantes ligados ao videoclipe disputaram a batalha e terminaram como finalistas.

Pouco antes, o público havia assistido a uma obra sobre violência, ausência de oportunidades, família e segunda chance.

Depois, os dois irmãos estavam no centro da rua disputando uma batalha através da palavra.

A sequência acabou produzindo uma espécie de continuação ao vivo do próprio videoclipe.

Da Vila para a escola

A circulação de “Essa Eu Fiz” não ficou restrita ao lançamento comunitário.

O projeto também levou o videoclipe a estudantes da Escola Estadual José Fernandes Machado, o “Machadão”, instituição frequentada por jovens e adolescentes que vivem na Vila de Ponta Negra.

Segundo o relatório da ação, a apresentação provocou debate entre alunos e professores sobre a narrativa construída pela música e pelas imagens.

Essa circulação era parte do objetivo original do trabalho: utilizar a obra não apenas como produto musical, mas como instrumento para discutir desigualdade, juventude, identidade negra, trabalho e oportunidades.

A mesma lógica explica a presença do videoclipe no Cine Beco.

A produção nasceu dentro de uma comunidade e posteriormente retornou a ela como obra cultural aberta ao público.

Quando o fomento transforma uma descoberta em obra

O percurso de “Essa Eu Fiz” evidencia também uma característica dos mecanismos públicos de fomento.

Quando MC AK2 recitou a composição durante a entrevista de “A Ponta que é Negra”, não havia um orçamento de videoclipe esperando por aquela música.

Existia uma letra.

Depois vieram a produção musical independente, os encontros em estúdio, a gravação da voz e a tentativa de transformar a faixa em projeto audiovisual.

Foi o financiamento cultural que possibilitou avançar para uma produção com equipe técnica, equipamentos, preparação artística, direção de fotografia, montagem, finalização e circulação comunitária.

O próprio relatório final identifica a produção como a primeira obra audiovisual do artista e registra que as condições financeiras de MC AK2 constituíam uma barreira para que um trabalho com aquela estrutura fosse realizado sem financiamento público.

É nesse ponto que a trajetória do clipe deixa de ser apenas a história de uma música.

Ela demonstra como uma política de fomento pode encontrar uma criação que já existia — naquele caso, literalmente escrita em uma folha de papel — e oferecer meios para que ela chegue ao público.

Próximo passo são os festivais

Com o videoclipe concluído, disponibilizado gratuitamente na internet e apresentado dentro da própria Vila de Ponta Negra, a produção prepara agora uma nova etapa de circulação, com a inscrição da obra em festivais e mostras audiovisuais.

A recepção inicial também tem sido acompanhada pela equipe. Segundo os responsáveis pela produção, comentários publicados no YouTube e no Instagram após a divulgação do clipe têm destacado de maneira positiva a mensagem, a fotografia e a identificação com a história apresentada.

Para MC AK2, porém, o percurso iniciado por “Essa Eu Fiz” antecede qualquer seleção em festival.

Antes de existir câmera, edital ou videoclipe, havia um trabalhador da Praia de Ponta Negra que participava de batalhas e guardava composições sem nunca ter produzido uma música autoral.

Uma entrevista feita para registrar sua vida acabou revelando outra possibilidade.

A letra saiu do papel.

Entrou no estúdio.

Virou música.

Depois ocupou as ruas, os becos, os grafites e a praia onde seu autor trabalha.

E, quando finalmente chegou à tela, foi exibida diante de sua família, dos amigos e dos vizinhos, praticamente na porta de casa.

“Essa Eu Fiz” nasceu de uma descoberta inesperada, mas terminou transformando o próprio território que inspirou a música em cenário, plateia e parte da obra.

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