Além das atividades comerciais de produção audiovisual, o estúdio da V Vídeo Produtora, no bairro do Alecrim, em Natal, vem sendo utilizado como espaço de formação, aperfeiçoamento e preparação de atores e atrizes do Rio Grande do Norte. A atuação envolve desde mentorias e gravações de materiais para portfólios profissionais até a disponibilização da estrutura para estudantes e realizadores independentes que precisam produzir cenas, fotografias e outros conteúdos ligados à formação audiovisual.
A iniciativa integra uma atuação cultural desenvolvida paralelamente às produções realizadas pela empresa. Em proposta apresentada sob o título “V Vídeo Cultural”, o espaço já definia como parte de sua atuação o apoio a artistas, eventos e produtores independentes, incluindo iniciativas sem estrutura financeira suficiente para acessar equipamentos profissionais. O documento também previa a ampliação dos recursos técnicos e das condições de acessibilidade do estúdio.
Essa utilização do espaço para formação também aparece em outras ações desenvolvidas ao longo dos últimos anos, como oficinas gratuitas de transmissão ao vivo e atividades direcionadas a estudantes de escolas públicas, jovens de bairros periféricos e interessados em ingressar profissionalmente no audiovisual.
Na preparação de atores, um dos trabalhos desenvolvidos ocorre em parceria com o ator, diretor e preparador de elenco Kaiony Venâncio.
Preparação para a câmera vai além da memorização do texto
A dinâmica realizada no estúdio atende tanto pessoas em início de carreira quanto atores e atrizes que já possuem experiência no teatro, na publicidade ou no audiovisual e precisam atualizar materiais profissionais.
Um dos principais produtos desenvolvidos nesse processo é a gravação de monólogos e cenas de demonstração.
Esse tipo de material pode ser utilizado em portfólios, apresentações profissionais, plataformas de casting e processos seletivos conduzidos por produtoras e diretores de elenco. Além das fotografias tradicionais, o vídeo permite observar elementos que não aparecem em uma imagem estática, como interpretação, voz, postura, ritmo, olhar, reação e relação do ator com a câmera.
Por isso, o processo não começa simplesmente com a câmera sendo ligada.
Antes da gravação, o texto é trabalhado com o intérprete. São observados leitura, intenção da cena, construção da personagem, postura, movimentação, direção do olhar, intensidade da voz e adequação da interpretação à linguagem audiovisual.
O método também aparece formalizado nos projetos de formação desenvolvidos posteriormente pela equipe. Os planos pedagógicos relacionados à preparação de elenco destacam que o ator precisa compreender personagem e conflito antes da gravação e que a direção pode trabalhar objetivos, ações, imagens e situações concretas em vez de solicitar apenas uma emoção abstrata.
A etapa seguinte utiliza a própria estrutura audiovisual do estúdio.
Iluminação, enquadramento, câmera, captação de áudio e direção são organizados para que a interpretação resulte em um material com padrão adequado para apresentação profissional. Depois da gravação, o conteúdo pode passar por edição e finalização.
Kaiony Venâncio une atuação e preparação de elenco
A parceria com Kaiony Venâncio está relacionada a uma trajetória que combina atuação, direção e formação.
Os registros profissionais reunidos pela própria equipe o identificam como ator, diretor, roteirista e preparador de elenco, com experiência em orientação artística e acompanhamento de atores em diferentes etapas dos processos criativos. Seu histórico de formação também registra atuação como mentor de atores e atrizes e participação em processos de criação teatral e audiovisual.
Essa experiência ganhou projeção nacional e internacional com sua participação no longa-metragem “O Agente Secreto”, dirigido por Kleber Mendonça Filho.
Kaiony interpreta Vilmar, personagem apresentado na trama como um matador envolvido diretamente na perseguição ao protagonista vivido por Wagner Moura. O Festival de Cannes registra oficialmente o ator potiguar no elenco da produção.
O filme teve uma trajetória internacional de destaque. No Festival de Cannes de 2025, Kleber Mendonça Filho recebeu o prêmio de Melhor Direção e Wagner Moura venceu como Melhor Ator. Antes da cerimônia do Oscar, a produção já acumulava mais de 70 vitórias em festivais e premiações internacionais e de associações de críticos.
Em 2026, O Agente Secreto chegou ao Oscar com quatro indicações: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional representando o Brasil, Melhor Ator para Wagner Moura e Melhor Elenco — categoria de casting. A lista oficial da Academia registra as quatro indicações.
A trajetória de Kaiony também evidencia uma característica do trabalho desenvolvido no estúdio: a preparação não é apresentada apenas como atividade destinada a atores iniciantes. Ela integra um processo contínuo de desenvolvimento profissional, necessário também para artistas que já circulam entre teatro, televisão, cinema e publicidade.
Experiência também foi aplicada em produções da própria V Vídeo
A preparação de elenco realizada no espaço já foi utilizada em projetos audiovisuais produzidos pela própria empresa.
Um dos exemplos está no videoclipe “Essa Eu Fiz”, de MC AK2. Como o rapper nunca havia protagonizado um videoclipe profissional, foi realizada uma etapa específica de preparação artística antes das filmagens. O relatório de execução do projeto registra formalmente Kaiony Venâncio como responsável pela preparação do artista.
A atividade permitiu trabalhar previamente a presença de MC AK2 diante das câmeras antes das diárias externas realizadas na Vila e na Praia de Ponta Negra.
A experiência também passou a integrar ações educativas. Em projetos formativos relacionados ao universo da websérie “Pinta: Um Guia Arroxado”, Kaiony é responsável por conteúdos de preparação de ator, construção de personagem e direção para cinema, incluindo exercícios corporais, vocais e emocionais e gravação de cenas.
Preparação infantil ocorre em parceria com Márcia Lohss
Outra vertente desenvolvida no estúdio está relacionada à preparação de crianças para atuação diante das câmeras.
Nesse caso, atividades são realizadas em parceria com a atriz, diretora e preparadora de elenco Márcia Lohss, que leva grupos e alunos ao estúdio após etapas anteriores de preparação artística.
Márcia possui formação em Artes Cênicas pela Escola de Artes Dramáticas de Hamburgo, na Alemanha, graduação em Comunicação Social pela UFRN e formação em direção de atores para cinema pela Escuela Internacional de Cine y Televisión, em Cuba. Sua trajetória inclui pesquisa em preparação de elenco para cinema e televisão, além da preparação de produções como a websérie SEPTO e o longa Filho do Mangue.
Nas atividades realizadas no estúdio, o processo de preparação das crianças culmina na gravação audiovisual de pequenas cenas ou histórias. A estrutura permite transformar os exercícios desenvolvidos anteriormente em uma experiência diante de câmera, iluminação e equipe técnica.
O trabalho com crianças exige procedimentos específicos. Os próprios planos pedagógicos desenvolvidos posteriormente pela V Vídeo destacam a necessidade de atenção diferenciada a atores iniciantes, crianças e pessoas sem experiência teatral, com orientação para que a direção mantenha um ambiente seguro e respeitoso durante a atividade.
Estudantes também utilizam a estrutura para projetos independentes
A utilização cultural do estúdio não está restrita às mentorias conduzidas por preparadores profissionais.
Outro eixo envolve a abertura da estrutura, mediante disponibilidade e agendamento, para estudantes universitários e coletivos independentes, especialmente ligados ao audiovisual.
Ao longo dos últimos anos, estudantes, inclusive da UFRN, passaram a utilizar a estrutura para atividades que seriam mais difíceis de realizar sem acesso a um espaço técnico. Entre elas estão gravações de monólogos, ensaios de cenas, sessões fotográficas, imagens para cartazes e capas de filmes, registros ligados a trabalhos de conclusão de curso e produções independentes.
Parte desses trabalhos não possui financiamento por editais ou leis de incentivo.
Nessas situações, o custo de locação de estúdio, iluminação, câmera, fotografia e demais equipamentos pode representar uma barreira para estudantes que ainda estão construindo seus primeiros portfólios.
A disponibilização, entretanto, não ocorre de maneira permanente ou irrestrita. Como o local mantém simultaneamente uma agenda comercial, as cessões e atividades culturais precisam ser previamente organizadas para compatibilizar as duas funções do espaço.
Esse modelo de colaboração também está presente na concepção pedagógica dos projetos desenvolvidos pela produtora, que identifica cessão de espaços, compartilhamento de estrutura e colaboração entre profissionais como mecanismos importantes para viabilizar produções audiovisuais independentes.
Espaço comercial e cultural passam a dividir a mesma estrutura
A manutenção dessas atividades acompanha uma discussão mais ampla sobre o papel dos espaços culturais independentes.
A Política Nacional Aldir Blanc prevê mecanismos específicos de apoio à manutenção de espaços, ambientes e iniciativas artístico-culturais. Em Natal, editais dessa natureza passaram a reconhecer formalmente empresas, organizações, coletivos e outras iniciativas que desenvolvem atividades culturais continuadas, inclusive quando esses espaços também possuem outras formas de sustentabilidade econômica.
No caso da V Vídeo, a estrutura profissional utilizada em gravações comerciais passa a cumprir uma segunda função quando recebe uma oficina, um estudante, uma criança em preparação artística ou um ator que precisa produzir seu primeiro material profissional.
Essa convivência entre atividade econômica e atuação cultural permite que equipamentos normalmente associados a sets profissionais também participem de processos de formação.
Para atores e atrizes que ainda buscam os primeiros trabalhos, a gravação de um monólogo pode representar a criação de um material até então inexistente no currículo. Para estudantes, algumas horas de acesso ao estúdio podem possibilitar a produção da fotografia ou da cena necessária para concluir um filme acadêmico. Para crianças em formação, a experiência oferece o primeiro contato com a dinâmica de uma gravação profissional.
A atuação como espaço cultural, portanto, amplia a função originalmente associada a uma produtora audiovisual. Além de receber projetos quando eles já estão prontos para serem gravados, o estúdio passa também a participar da etapa anterior: a preparação de quem ainda está construindo as condições para chegar ao set.



