A atuação cultural da V Vídeo Produtora passa a ganhar uma nova etapa em 2026 com a ampliação de atividades que começam dentro do estúdio, no bairro do Alecrim, e seguem para escolas, praças, comunidades e outros espaços de circulação cultural de Natal. O modelo reúne produção audiovisual, formação técnica, cineclubismo, realização de podcasts, mentorias e apoio a estudantes, aproximando a estrutura profissional utilizada pela produtora de ações educativas e de formação de público.
A proposta é fazer com que a atividade cultural não permaneça restrita aos cerca de 50 metros quadrados do estúdio. Equipamentos, profissionais, obras produzidas e conhecimentos acumulados em cinema, transmissão ao vivo e produção de conteúdo passam a ser utilizados em um circuito que estabelece relações com professores, estudantes, artistas, coletivos e comunidades.
Cineclubes levam produção audiovisual para dentro das escolas
Entre as ações previstas está a realização de sessões cineclubistas e exibições comentadas, principalmente em instituições de ensino e territórios com menor acesso à programação audiovisual independente.
O formato parte de uma experiência que já vinha sendo desenvolvida antes da aprovação do projeto.
A primeira temporada da websérie “Pinta: Um Guia Arroxado”, realizada pela V Vídeo por meio da Lei Paulo Gustavo, previa originalmente como contrapartida uma exibição em instituição de ensino. A circulação alcançada pela obra, entretanto, superou a meta inicial e levou a série para mais de dez escolas e campi do Instituto Federal do Rio Grande do Norte, atingindo aproximadamente 1,5 mil estudantes em sessões acompanhadas por debates e atividades educativas.
As exibições demonstraram que a relação entre uma produtora de cinema e uma escola pode continuar depois dos créditos finais.
Em instituições como o IFRN – Campus Natal-Central e o Campus São Gonçalo do Amarante, a websérie passou a gerar discussões relacionadas ao próprio conteúdo apresentado pelos episódios: patrimônio, história, identidade cultural, turismo e, principalmente, a forma de falar dos potiguares.
O resultado ajudou a orientar uma das diretrizes atuais da atuação cultural da produtora: a sessão não deve ser entendida apenas como uma exibição gratuita, mas como ponto de partida para outras atividades.
Os projetos desenvolvidos posteriormente pela equipe passaram a prever formalmente sessões comentadas, debates sobre identidade e pertencimento territorial, materiais pedagógicos para professores e circuitos cineclubistas, reforçando a intenção de transformar produções audiovisuais em ferramentas permanentes de formação.
Quando uma série entra no planejamento pedagógico
Uma das experiências ocorreu no Colégio DCC, em Natal.
Após o contato dos estudantes com “Pinta: Um Guia Arroxado”, professores e alunos desenvolveram atividades que ultrapassaram a própria exibição dos episódios. Personagens como Pinta e Boleto foram transformados em ilustrações; estudantes produziram mapas relacionados às expressões linguísticas utilizadas em diferentes regiões; e uma das salas recebeu ambientação temática com referências às locações apresentadas pela série.
A experiência demonstrou uma possibilidade diferente de circulação para o audiovisual potiguar.
Uma obra produzida originalmente para cinema, internet e televisão pode ser posteriormente utilizada pelo professor para trabalhar conteúdos de Língua Portuguesa, Geografia, História, Artes ou Comunicação.
No caso do Pinta, a própria opção de manter palavras, construções e expressões características do Rio Grande do Norte abriu espaço para discussões sobre variação linguística, preconceito linguístico, regionalismo e identidade.
Essa possibilidade passou a influenciar inclusive o planejamento de projetos posteriores da produtora, que prevê materiais educativos e conteúdos destinados a escolas, universidades e cineclubes para ampliar a vida útil das obras depois de sua circulação convencional.
Retorno ao IFRN também teve dimensão pessoal
A circulação da série pelo Campus Natal-Central teve ainda uma dimensão particular para Rafael Maurício, criador e diretor da websérie e diretor da V Vídeo.
Maurício estudou no então Cefet-RN, atual IFRN, e concluiu o ensino médio no campus em 1999. Em 2025, retornou ao mesmo ambiente levando uma produção audiovisual da qual participou da criação e direção para ser exibida e discutida com novos estudantes.
Segundo ele, a experiência ganhou relevância principalmente quando professores começaram a relacionar a obra às aulas de Língua Portuguesa e aos estudos da linguagem.
Para o diretor, retornar décadas depois com uma produção local capaz de servir como material complementar representou também a possibilidade de oferecer aos estudantes um tipo de experiência que não fazia parte de sua própria formação no final dos anos 1990.
A circulação deixou, assim, de funcionar exclusivamente como contrapartida prevista por uma lei de incentivo e passou a revelar uma demanda existente dentro das próprias escolas.
Visitas mostraram que estudantes já estavam produzindo seus próprios filmes
Essa aproximação também permitiu identificar outro movimento.
Durante visitas realizadas a instituições de ensino para divulgar oficinas e ações de formação, a equipe da V Vídeo encontrou estudantes que já estavam produzindo curtas, documentários, vídeos e outros conteúdos audiovisuais dentro das próprias escolas.
Em muitos casos, as produções eram realizadas de forma independente, utilizando telefones celulares e os equipamentos disponíveis no próprio ambiente escolar.
A limitação técnica, entretanto, não significava falta de ideias.
Os estudantes já possuíam personagens, temas e histórias que queriam contar, mas demonstravam dúvidas sobre questões como enquadramento, movimento de câmera, iluminação, captação de áudio, escolha de cores, montagem e organização de uma gravação.
A partir dessa constatação, a V Vídeo pretende ampliar em 2026 um modelo de apoio técnico e orientação a produções estudantis, de acordo com a disponibilidade de profissionais e a articulação prévia com cada instituição.
Atheneu terá apoio em produções documentais de estudantes
Uma das aproximações aconteceu com o histórico Colégio Atheneu Norte-Riograndense, instituição pública fundada em 1834 e uma das referências tradicionais da educação no estado.
Durante visita à escola, a equipe conheceu trabalhos que serão desenvolvidos pelos estudantes, entre eles produções documentais relacionadas à história de mulheres do Rio Grande do Norte.
O contato mostrou uma situação recorrente em projetos escolares: alunos conseguem pesquisar personagens, elaborar entrevistas e pensar na narrativa, mas nem sempre possuem acesso a profissionais capazes de orientar tecnicamente a passagem daquela ideia para o audiovisual.
O apoio pretende atuar justamente nesse ponto.
Orientações sobre direção de fotografia, posicionamento da câmera, iluminação, linguagem documental, montagem e utilização das cores podem ser oferecidas como suporte, preservando a autoria dos próprios estudantes.
A proposta não é transformar uma atividade escolar em produção da V Vídeo, mas contribuir tecnicamente para que os alunos consigam executar melhor a produção que já decidiram realizar.
Equipamentos também devem entrar nas escolas
Outra atividade prevista para agosto de 2026 será realizada junto a estudantes do Instituto Padre Miguelinho, escola estadual localizada no Alecrim e que atende alunos do ensino médio e da Educação de Jovens e Adultos.
A programação prevê uma demonstração prática relacionada à transmissão audiovisual ao vivo.
Em vez de apresentar apenas uma palestra sobre o funcionamento de uma live, a proposta é levar equipamentos para que os estudantes possam visualizar e experimentar parte da estrutura utilizada profissionalmente.
Câmeras, mesa de corte, interface de áudio e softwares de transmissão fazem parte desse universo.
A atividade procura apresentar também as funções existentes atrás das câmeras. Uma transmissão pode envolver operador de câmera, técnico de áudio, diretor de corte, produtor, operador de streaming e profissionais responsáveis pela montagem e monitoramento do sistema.
A metodologia acompanha oficinas já desenvolvidas pela produtora, nas quais o contato direto com câmera, switcher, áudio e softwares de streaming ocupa a maior parte da carga horária.
Nesse caso, a escola passa a funcionar também como espaço de apresentação de possibilidades profissionais que muitos estudantes ainda desconhecem.
Podcasts temáticos passam a integrar o trabalho cultural
Outra frente prevista é a produção de podcasts e programas audiovisuais relacionados a temas culturais, sociais e educativos.
O estúdio já possui estrutura utilizada comercialmente para gravações de podcast. Na atuação cultural, entretanto, o mesmo espaço passa a receber conteúdos que podem nascer de oficinas, debates, artistas independentes, estudantes e assuntos identificados durante as ações realizadas fora da produtora.
A lógica cria um movimento de ida e volta.
Uma equipe pode visitar uma escola e identificar um tema ou personagem. Posteriormente, professores, estudantes, artistas ou especialistas podem ser convidados para aprofundar aquela discussão no estúdio. O conteúdo é gravado ou transmitido, transformado em programa completo e também pode gerar cortes para circulação nas redes sociais.
Os projetos desenvolvidos pela equipe já preveem podcasts, entrevistas, vídeos curtos e conteúdos temáticos relacionados a identidade cultural, pertencimento territorial, juventudes, cultura negra, economia criativa, turismo comunitário e diversidade cultural.
Dessa forma, uma atividade presencial deixa de terminar no momento em que o público vai embora.
O conteúdo pode continuar disponível e alcançar pessoas que não participaram presencialmente.
Estudantes universitários também entram nessa rede
A relação com instituições de ensino inclui ainda estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, particularmente aqueles ligados a cursos e projetos de produção audiovisual.
As oficinas de transmissão ao vivo realizadas pela V Vídeo mantêm reserva e prioridade para estudantes, permitindo contato com estruturas técnicas que nem sempre estão disponíveis individualmente durante a formação acadêmica.
Além das oficinas, a produtora disponibiliza, mediante agendamento e disponibilidade da agenda do estúdio, suporte para determinadas produções independentes.
A estrutura pode ser utilizada para sessões fotográficas, gravação de voice-over e locução, monólogos, pequenas cenas e materiais de projetos acadêmicos e trabalhos de conclusão de curso.
A medida é voltada principalmente a trabalhos sem financiamento, nos quais estudantes possuem uma necessidade técnica específica, mas não dispõem de orçamento para contratar integralmente uma estrutura profissional.
Essa aproximação também está presente nos projetos formativos da produtora. A metodologia da oficina “Do Roteiro ao Set”, por exemplo, prevê transformar jovens que participaram inicialmente de exibições em potenciais realizadores, apresentando roteiro, fotografia, câmera, produção, áudio, preparação de elenco e direção.
A produção passa a ser apenas uma das etapas
O conjunto dessas atividades altera a forma como a atuação de uma produtora audiovisual pode ser compreendida dentro de um espaço cultural.
O processo pode começar no estúdio, com uma reunião, uma gravação, uma oficina ou a produção de um filme.
Depois, a obra segue para uma escola.
A sessão gera um debate.
O debate pode resultar em uma atividade pedagógica.
Um estudante interessado no processo participa posteriormente de uma oficina.
Outro grupo decide produzir seu próprio documentário e procura orientação técnica.
Um personagem identificado durante essas ações pode posteriormente participar de um podcast.
E o conteúdo produzido volta a circular pela internet, pelas escolas ou pelas comunidades.
Esse modelo integrado passa a orientar a nova fase cultural da V Vídeo.
O subsídio conquistado no Edital de Espaços Culturais da PNAB em 2026 contribui para manter uma estrutura que já vinha combinando produção profissional com formação, circulação e apoio a realizadores. O edital integra uma política municipal que, neste ciclo, destinou recursos específicos para a manutenção de espaços culturais e, em outras modalidades, para formação, difusão, cinema itinerante e ações cineclubistas.
A experiência iniciada com a circulação de “Pinta: Um Guia Arroxado” ajudou a demonstrar o potencial dessa relação. Uma contrapartida inicialmente planejada para alcançar uma escola acabou chegando a mais de dez instituições e aproximadamente 1,5 mil estudantes.
A partir de 2026, a intenção é transformar esse resultado, antes provocado pela repercussão espontânea de uma obra, em uma linha permanente de atuação.
Nesse modelo, o cinema não termina quando o arquivo final é exportado e a escola não aparece apenas como local de exibição. A produtora passa a produzir, formar e oferecer suporte técnico; a escola recebe o conteúdo, debate e também produz; e estudantes deixam de ocupar exclusivamente a posição de público para experimentar funções dentro da própria cadeia audiovisual.
É essa integração entre estúdio, escola e território que passa a orientar a atuação da V Vídeo como espaço cultural.