agosto 11, 2026

“Pinta: Um Guia Arroxado” nasceu de mais de uma década de registros sobre cultura periférica em Natal

A produção da primeira temporada da websérie “Pinta: Um Guia Arroxado”, lançada em 2025, foi resultado de um processo criativo iniciado anos antes da realização da websérie. Produzido pela V Vídeo com recursos da Lei Paulo Gustavo, o projeto reuniu referências acumuladas ao longo de mais de uma década de trabalhos audiovisuais relacionados à juventude, à cultura popular, à periferia e às manifestações urbanas de Natal.

A concepção inicial previa uma produção na qual um jovem periférico apresentaria Natal a partir de seu próprio ponto de vista, percorrendo a cidade da região de Ponta Negra, na Zona Sul, até a Redinha, na Zona Norte. A proposta era utilizar locais turísticos conhecidos, mas também incorporar territórios, manifestações culturais, expressões linguísticas e experiências que normalmente recebem menor destaque nas narrativas convencionais sobre turismo.

O personagem escolhido para conduzir essa proposta foi o Pinta, arquétipo reconhecido no cotidiano natalense pela linguagem, vestuário, comportamento e relação com os espaços populares da cidade. Na websérie, entretanto, essa figura passou por uma mudança de perspectiva: em vez de ocupar uma posição associada à marginalização ou ao estereótipo, tornou-se protagonista e responsável por apresentar informações históricas, culturais e turísticas aos visitantes.

A primeira temporada foi protagonizada pelo ator Áureo Deni e acompanhou Pinta durante passeios realizados com o casal de turistas Amália e Marcelo. A narrativa utilizou situações de comédia para abordar história, gastronomia, música, patrimônio, costumes e o chamado “potiguês”, conjunto de expressões características da fala popular do Rio Grande do Norte.

Referências começaram ainda nas produções para internet

Parte das referências que posteriormente seriam incorporadas à série já aparecia em conteúdos produzidos para internet desde o início da década passada.

Em 2013, durante a popularização mundial do Harlem Shake, a página TodoNatalense realizou versões do formato em áreas como Praia do Meio e Redinha. Entre os conteúdos estava o chamado “Pinta Shake”, que utilizava o meme internacional para registrar comportamentos, estética e manifestações de jovens que frequentavam praias populares de Natal.

Anos depois, outra produção passou a integrar esse processo de construção conceitual. Após a repercussão do natalense Ronaldo, conhecido nacionalmente pela expressão “Que onda é essa, meu irmão?”, foi produzida uma esquete que utilizava novamente referências do jovem periférico natalense.

Ronaldo morreu em 2016, aos 18 anos, após ser vítima de homicídio em Natal. Sua imagem e a repercussão alcançada pela forma espontânea de falar passaram a ser consideradas pela equipe entre as referências culturais relacionadas à criação do Pinta.

A esquete produzida posteriormente reuniu Mateus Ângelo e Lucas Sabino e abordava situações do cotidiano da cidade, como transporte público, linguagem regional e alimentação popular. Entre os elementos utilizados estava a ginga com tapioca, prato tradicional ligado principalmente à Redinha e reconhecido posteriormente como Patrimônio Cultural Imaterial do Rio Grande do Norte.

Esses registros contribuíram para o amadurecimento da ideia de desenvolver uma obra de ficção protagonizada por um personagem que pudesse representar aspectos da juventude periférica sem retirar dele sua identidade cultural.

Roteiros foram desenvolvidos a partir de observações da própria cidade

Segundo o criador e diretor Rafael Maurício, parte significativa das ideias dos episódios surgiu durante caminhadas realizadas nas praias de Natal, principalmente aos domingos.

Durante esses percursos eram observados comportamentos, expressões, situações cotidianas e possibilidades de locação que posteriormente eram transformadas em argumentos para a série. As ideias eram organizadas e desenvolvidas com os roteiristas e demais integrantes da equipe.

A prática também tem relação com estudos acadêmicos sobre criatividade. Pesquisa desenvolvida por pesquisadores da Universidade Stanford identificou associação entre caminhada e aumento da capacidade de geração de ideias em determinados tipos de tarefas criativas.

No caso da websérie, o processo permitiu que a criação permanecesse diretamente relacionada aos espaços que posteriormente seriam utilizados nas filmagens.

A experiência acumulada em coberturas realizadas anteriormente também influenciou os roteiros. Registros de festivais de hip-hop, apresentações musicais, eventos populares e ações realizadas em territórios periféricos contribuíram para a escolha de manifestações incorporadas aos episódios.

Seis episódios percorreram diferentes territórios do RN

A primeira temporada foi formada por seis episódios, com aproximadamente 110 minutos de conteúdo audiovisual no conjunto da obra.

Cada episódio foi estruturado a partir de uma experiência diferente.

O primeiro utilizou o Forte dos Reis Magos, onde a narrativa associou um espaço histórico de defesa militar a uma batalha de rima, com participação de integrantes ligados à cena do hip-hop.

O segundo levou os personagens para um show da Banda Grafith, incorporando à série uma manifestação musical de forte presença na cultura popular potiguar.

No terceiro episódio, a produção seguiu para o litoral norte e realizou gravações em áreas como Pitangui, Pratagi e Lava-Cu, apresentando locais que, embora conhecidos por moradores de determinadas regiões, ainda estão fora dos roteiros mais tradicionais de turismo.

O quarto episódio foi ambientado no Beco da Lama, no Centro Histórico de Natal, relacionando boemia, samba, gastronomia, arte urbana e ocupação cultural.

A Gamboa do Jaguaribe integrou outro episódio da temporada, enquanto o encerramento utilizou locais ligados à memória da presença norte-americana em Natal durante a Segunda Guerra Mundial, incluindo o Museu da Rampa e áreas do Alecrim.

A estrutura permitiu que o turismo funcionasse como elemento narrativo, e não apenas como apresentação de paisagens.

Produção trabalhou com equipe potiguar e cronograma reduzido

A execução da primeira temporada exigiu uma operação concentrada.

Foram realizadas seis grandes diárias de gravação, com aproximadamente 12 horas de trabalho por diária. Em média, cerca de 25 profissionais participavam diretamente do set, entre direção, fotografia, produção, câmera, áudio, arte, maquiagem, elenco, assistência e logística.

A direção dos episódios foi dividida entre Rafael Maurício, Kaiony Venâncio e Tupan Diego, com dois episódios sob responsabilidade de cada diretor.

As gravações foram predominantemente externas, o que aumentou a dependência de condições climáticas, horários de funcionamento das locações, trânsito, deslocamentos e disponibilidade de elenco e participantes.

O transporte da equipe também fazia parte da operação diária, com utilização de veículos para profissionais, elenco e equipamentos.

Apesar de os episódios apresentarem uma sequência narrativa definida, eles não foram gravados na mesma ordem em que aparecem na temporada. A organização das filmagens foi determinada principalmente pelas condições de produção de cada locação.

A gravação realizada na Gamboa do Jaguaribe, por exemplo, foi uma das últimas concluídas, apesar de corresponder ao quinto episódio da série.

Clima, animais e deslocamentos provocaram adaptações

As filmagens externas também produziram situações que posteriormente passaram a integrar os registros de bastidores da websérie.

Mudanças climáticas exigiram adaptações de horários e planejamento, principalmente em cenas realizadas em praias, rios e áreas abertas. A equipe precisava manter atenção à continuidade de luz entre diferentes planos, além de adequar o cronograma às condições de cada local.

Outra situação ocorreu durante uma sequência envolvendo um jumento.

A cena previa a chegada de Pinta montado no animal depois de informar aos turistas que sua motocicleta havia quebrado. Embora a participação tenha poucos segundos no episódio finalizado, a gravação exigiu preparação adicional, deslocamento, posicionamento e adequação do cronograma ao comportamento do animal.

Situações desse tipo demonstraram a diferença entre o tempo apresentado na obra final e o tempo necessário para executar determinadas cenas durante uma produção audiovisual.

O dialeto passou a fazer parte da estrutura da série

Um dos elementos definidos ainda durante o desenvolvimento foi a manutenção das expressões utilizadas pelo personagem.

Termos e construções linguísticas associadas ao cotidiano potiguar foram incorporados aos diálogos sem que o protagonista precisasse alterar sua forma de falar para ocupar a posição de guia.

A presença do personagem Professor, interpretado por Kaiony Venâncio, ajudou a estruturar essa proposta. Em diferentes momentos, ele aparece para contextualizar expressões, fatos históricos e informações apresentadas durante os episódios.

A estratégia permitiu combinar comédia e conteúdo educativo sem retirar da narrativa as características linguísticas do protagonista.

Esse aspecto posteriormente despertou interesse de professores das áreas de Língua Portuguesa, Linguística e Comunicação durante a circulação da série em instituições de ensino.

Produção também incorporou acessibilidade

Após as filmagens, a série passou por montagem, tratamento de imagem, edição e finalização de áudio, animações e criação de elementos gráficos.

A obra também recebeu versões com recursos de Libras, legendagem para surdos e ensurdecidos e audiodescrição, ampliando as possibilidades de acesso durante sua circulação.

A pós-produção teve ainda o desafio de estabelecer unidade entre episódios gravados em condições muito diferentes, incluindo praia, eventos com grande público, áreas urbanas, espaços históricos e comunidades.

Estreia aconteceu em sala de cinema

“Pinta: Um Guia Arroxado” foi lançado oficialmente em 30 de agosto de 2025, em sessão realizada no Cineflix do Partage Norte Shopping, em Natal.

Depois da estreia, a produção iniciou um processo de circulação que incluiu internet, instituições de ensino, eventos culturais e televisão.

Os episódios foram apresentados em mais de dez escolas públicas e campi do IFRN, alcançando aproximadamente 1,5 mil estudantes em sessões acompanhadas de debates com integrantes da equipe e do elenco.

No ambiente digital, trailer, episódios e conteúdos relacionados ultrapassaram dezenas de milhares de visualizações.

A temporada também foi exibida durante seis sábados na Inter TV Cabugi, afiliada da Globo no Rio Grande do Norte, ampliando a circulação da produção para a televisão aberta.

Série chegou ao Rio WebFest

Ainda em 2025, episódios da websérie foram inscritos no Rio WebFest, realizado na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.

A produção foi finalista na categoria Educacional e participou de atividades de pitching e rodada de negócios. Durante o festival, recebeu o Troféu Adeline Becker e o reconhecimento de Destaque da Noite.

A participação ampliou a circulação nacional de uma produção desenvolvida integralmente no Rio Grande do Norte e baseada em referências culturais locais.

A trajetória da primeira temporada consolidou uma proposta que havia começado anos antes de sua realização: utilizar o audiovisual para apresentar Natal e o Rio Grande do Norte a partir de personagens, linguagens e manifestações que já faziam parte da cidade, mas que nem sempre ocupavam o centro das narrativas produzidas sobre ela.

Mais do que a criação de um personagem para uma série de turismo, a produção de “Pinta: Um Guia Arroxado” reuniu experiências acumuladas desde os primeiros conteúdos digitais, passou pela observação da cultura popular e das juventudes periféricas e transformou esse repertório em uma obra de ficção produzida, protagonizada e ambientada no Rio Grande do Norte.

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