agosto 11, 2026

Quando o beco vira sala de cinema: Cine Beco leva audiovisual potiguar para dentro da comunidade

Não havia poltronas numeradas, bilheteria ou paredes separando a tela da comunidade. No Cine Beco Itinerante, bastava abrir a porta, chegar à calçada, olhar pela janela ou ocupar a própria rua para encontrar uma sessão de cinema.

A experiência piloto realizada na Vila de Ponta Negra, em Natal, partiu de uma proposta simples na forma, mas ampla em seus objetivos: deslocar o audiovisual potiguar até territórios onde o acesso às salas tradicionais de cinema e a determinadas programações culturais ainda encontra barreiras econômicas, territoriais e sociais.

Em vez de esperar que o público se deslocasse até um equipamento cultural, foi a estrutura de exibição que chegou ao público. Um beco da comunidade foi temporariamente transformado em sala de cinema a céu aberto, fazendo com que moradores pudessem acompanhar a programação praticamente da porta de suas casas.

A iniciativa integra um movimento de democratização do audiovisual que já possui outras experiências de circulação no Rio Grande do Norte. A particularidade do Cine Beco está no formato adotado: a ocupação de becos, vielas e ruas residenciais como espaços de exibição, combinando cinema independente potiguar com outras manifestações produzidas ou vivenciadas no próprio território, especialmente a cultura hip-hop.

O projeto também estabeleceu como um de seus eixos a circulação de obras com protagonismo negro e periférico, ampliando a presença na tela de personagens, artistas e histórias que nem sempre ocupam posições centrais no audiovisual comercial.

O cinema chega onde as pessoas já estão

A discussão sobre acesso à cultura ultrapassa o preço de um ingresso.

Pesquisa nacional realizada em novembro de 2025 pelo Ministério da Cultura e pela Nexus mostrou que apenas 23% dos entrevistados haviam frequentado um cinema nos três meses anteriores. Quase metade da população pesquisada não havia frequentado nenhum dos equipamentos culturais apresentados no levantamento durante o período. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 33% disseram ter ido ao cinema, apesar de essa ser justamente uma das faixas com maior interesse por filmes.

O cinema também apareceu como o equipamento cultural que os brasileiros mais gostariam de frequentar com maior regularidade: 33% das intenções, chegando a 39% entre pessoas de 16 a 24 anos e a 36% entre famílias com renda de um a dois salários mínimos.

A distância entre desejo e acesso aparece nas próprias barreiras apontadas pela pesquisa. Falta de dinheiro, preço de ingressos, transporte, ausência de opções culturais próximas e falta de tempo estão entre os obstáculos. O levantamento ressalta ainda que, para os jovens, o custo de participar de uma programação não termina no ingresso: deslocamento e alimentação também pesam no orçamento, fazendo com que atividades gratuitas ganhem importância.

A desigualdade territorial é anterior a esse levantamento. Dados do IBGE mostraram que, em 2018, 39,9% da população brasileira vivia em municípios sem nenhuma sala de cinema. Entre pretos e pardos, essa proporção chegava a 44%, contra 34,8% entre pessoas brancas. O próprio instituto apontou que Norte e Nordeste apresentavam menor presença de equipamentos culturais e uma combinação de desvantagens socioeconômicas e territoriais.

É justamente nessa discussão que iniciativas de cinema comunitário encontram sua função. O problema não está apenas em produzir filmes, mas em estabelecer caminhos para que essas produções sejam encontradas pelo público.

No Cine Beco, esse caminho pode ter poucos metros.

O espectador pode estar sentado em uma cadeira colocada na rua. Pode acompanhar da calçada. Pode chegar depois que a sessão começou. Uma família pode assistir praticamente em frente à própria residência. A rua deixa momentaneamente de exercer apenas a função de passagem e passa a funcionar como espaço de convivência, circulação cultural e exibição audiovisual.

Um Pinta da periferia ocupando o centro da tela

Entre as produções exibidas na experiência piloto estiveram episódios de “Pinta: Um Guia Arroxado”, websérie potiguar que transforma em protagonista uma figura imediatamente reconhecível no cotidiano de Natal.

O personagem Pinta nasce de um arquétipo associado ao jovem periférico natalense — no jeito de falar, nas roupas, nas expressões, no humor e na relação com a cidade. A diferença está no lugar ocupado por ele na narrativa.

Em vez de aparecer como personagem secundário, ameaça ou caricatura social, ele passa a conduzir a história.

Na série, o jovem periférico é apresentado com repertório histórico e cultural, conhece o território em que vive, explica expressões regionais, conduz turistas e estabelece uma relação própria com os lugares visitados. A construção preserva o dialeto e elementos visuais associados ao personagem sem retirar dele inteligência, conhecimento ou capacidade de interpretar a cidade.

A própria apresentação pública da websérie define o personagem como alguém inspirado no jovem periférico natalense e criado para deslocar um estereótipo em direção à identidade cultural, utilizando humor e regionalismo para apresentar outros olhares sobre o Rio Grande do Norte.

Exibir essa narrativa dentro de uma comunidade acrescenta outra camada à experiência. Não se trata apenas de levar cinema à periferia, mas de permitir que o território encontre na tela personagens que compartilham referências estéticas, linguísticas e sociais que fazem parte de seu cotidiano.

A periferia também faz parte da imagem do turismo

A presença de um protagonista negro e periférico também provoca uma discussão sobre quem costuma aparecer quando o audiovisual representa territórios turísticos.

Ponta Negra é um dos espaços mais conhecidos do turismo potiguar. Ao redor da praia, hotéis, restaurantes, bares, comércio informal, passeios e uma extensa cadeia de serviços movimentam diariamente trabalhadores de diferentes bairros e comunidades.

Parte significativa da narrativa turística tradicional, porém, costuma concentrar suas imagens no visitante e na paisagem.

O trabalhador que serve a mesa, conduz uma atividade, vende produtos na praia, prepara alimentos, monta estruturas, transporta visitantes ou mantém diferentes serviços funcionando nem sempre ocupa o mesmo espaço de representação.

O Cine Beco procura inverter parte dessa lógica ao utilizar o audiovisual para aproximar turismo, periferia, identidade negra e memória dos trabalhadores. A comunidade deixa de aparecer apenas como fornecedora de mão de obra para também ocupar o lugar de personagem, realizadora e espectadora de sua própria representação.

Essa perspectiva atravessa outro trabalho desenvolvido a partir da Vila de Ponta Negra: o documentário “A Ponta que é Negra”, ainda em processo de produção, voltado às histórias de trabalhadores negros ligados ao território.

Foi durante as gravações desse documentário que a equipe conheceu uma história que acabaria chegando à tela do Cine Beco.

Uma letra guardada no papel chega à tela da própria comunidade

Entre os entrevistados de “A Ponta que é Negra” estava MC AK-2, morador da Vila de Ponta Negra e artista que escrevia suas próprias letras, mas ainda não havia conseguido transformar uma delas em uma produção musical completa.

A aproximação durante o documentário deu origem a outro processo. Com apoio técnico e audiovisual, uma composição que até então existia no papel passou pelas etapas necessárias para se transformar em música gravada, interpretada e finalizada.

Nascia “Essa Eu Fiz”, primeira música produzida do artista.

Depois veio o videoclipe.

A obra trabalha questões relacionadas à falta de oportunidades, às limitações enfrentadas pela juventude periférica e à ausência de suporte que pode atravessar a trajetória de jovens de comunidades populares. Em vez de apresentar essas questões de fora para dentro, a narrativa é construída a partir de alguém que vive no próprio território.

O Cine Beco tornou-se o espaço escolhido para apresentar publicamente esse trabalho.

E a geografia dessa estreia carregava um significado particular: o videoclipe foi exibido dentro da própria Vila de Ponta Negra, em uma viela próxima à casa do artista, diante de familiares, amigos, vizinhos e moradores que conheciam de perto parte da realidade tratada na música.

Terminada a exibição, a tela deixou de ser o único centro da programação.

As pessoas relacionadas àquela história foram chamadas para conversar com o público.

Quando o personagem sai da tela e pega o microfone

O diálogo após o videoclipe transformou a sessão em espaço de memória oral.

MC AK-2, familiares, amigos e pessoas envolvidas no processo puderam falar sobre experiências que ajudavam a contextualizar aquilo que o público havia acabado de assistir. Era uma situação que dificilmente poderia ser reproduzida em uma sessão convencional: o filme estava sendo apresentado praticamente no lugar onde sua própria história havia sido construída.

Um dos momentos mais marcantes ocorreu durante o depoimento de Totonho, irmão de MC AK-2.

Ao conversar com os moradores, ele relatou ter passado pelo sistema prisional e falou sobre a importância que uma oportunidade de trabalho oferecida pelo irmão teve em sua trajetória depois desse período. Diante de crianças, jovens e adultos da própria comunidade, utilizou sua experiência para defender que o caminho do crime não compensa e que uma segunda oportunidade pode alterar o rumo de uma vida.

Naquele instante, o cinema cumpria uma função que ultrapassava a exibição.

A tela havia provocado uma conversa.

E a conversa havia criado espaço para que alguém da própria comunidade transmitisse uma experiência vivida diretamente a outros moradores — inclusive jovens que poderiam reconhecer naquele relato situações próximas de suas realidades.

Não era uma palestra preparada previamente nem um discurso levado por alguém de fora. Era um morador falando para outros moradores a partir de sua própria história.

Depois do filme, a batalha

O cinema não encerrou a programação.

A experiência foi construída em articulação com artistas, profissionais e coletivos que contribuíram para a realização da atividade. Entre eles estava a Batalha da Gruta, movimento ligado à cultura hip-hop e às batalhas de rima.

Após as exibições, o espaço ocupado pelo cinema também recebeu música, apresentações e disputa de improviso. Artistas da própria comunidade puderam participar da programação, aproximando linguagens diferentes dentro de uma mesma ação cultural.

Um dos episódios mais curiosos aconteceu justamente na batalha de rima: MC AK-2 e Totonho chegaram juntos à final.

Pouco antes, os dois estavam diante do público relatando experiências familiares relacionadas à trajetória narrada no videoclipe. Depois, passaram a ocupar a mesma rua como artistas, disputando uma final de batalha.

A sequência resume parte da proposta do Cine Beco.

O morador não precisa ser apenas público.

Ele pode ser personagem de um documentário, compositor, cantor, MC, debatedor, artista convidado ou alguém cuja experiência de vida produz reflexão para outras pessoas.

Cinema independente também precisa chegar ao público

A circulação representa um dos desafios permanentes da produção audiovisual independente.

Realizar um filme não garante que ele encontrará espectadores. Obras produzidas fora dos grandes circuitos comerciais podem circular por festivais, mostras, cineclubes e eventos especializados, mas esses espaços nem sempre chegam aos bairros onde vivem parcelas significativas da população.

O próprio cenário de Natal ajuda a dimensionar a discussão sobre a necessidade de ampliar espaços públicos de exibição. Em 2025, o Ministério da Cultura anunciou investimento de R$ 935 mil para a restauração do antigo Cine Panorama, no bairro das Rocas, com a proposta de transformá-lo novamente em cinema público de rua. Segundo o MinC, a recuperação atende a uma demanda do setor audiovisual potiguar por democratização do acesso e circulação de produções locais e nacionais.

Projetos itinerantes atuam em outra escala dessa mesma questão.

Em vez de criar um endereço fixo para onde o público deverá se deslocar, criam estruturas capazes de circular.

No caso do Cine Beco, a lógica vai ainda além: não é necessário encontrar uma praça central ou um grande equipamento para realizar a sessão. O próprio desenho das comunidades — suas ruas estreitas, becos e vielas — passa a ser entendido como possibilidade de espaço cultural.

A sala de cinema pode nascer onde antes havia apenas uma parede, algumas casas e uma rua.

Ver-se na tela também é uma forma de acesso

Democratizar o cinema não significa somente permitir que mais pessoas vejam filmes.

Também significa discutir quais filmes chegam até elas e quem aparece nesses filmes.

Para uma criança ou um jovem negro de uma comunidade periférica, o acesso ao audiovisual pode ganhar outro significado quando personagens negros não aparecem exclusivamente associados à violência, à pobreza ou a posições secundárias.

Da mesma forma, reconhecer o próprio sotaque, expressões utilizadas no cotidiano, paisagens conhecidas, artistas do bairro e histórias de trabalhadores locais altera a relação entre público e obra.

A identificação deixa de acontecer apesar da origem territorial e passa a acontecer justamente por causa dela.

Esse princípio orientou a experiência do Cine Beco na Vila de Ponta Negra: fazer com que o cinema independente potiguar não estivesse apenas disponível gratuitamente, mas estivesse fisicamente inserido no território e culturalmente conectado às pessoas que vivem nele.

Quando uma viela se transforma em sala de exibição, a democratização não ocorre apenas porque não há cobrança de ingresso.

Ela acontece porque desaparece parte da distância entre a comunidade e o espaço cultural.

A porta de casa vira entrada.

A calçada vira plateia.

A parede vira tela.

E moradores que durante décadas puderam aparecer apenas como cenário ou mão de obra de uma cidade turística encontram a possibilidade de ocupar outro lugar: o centro da imagem, da narrativa e da própria produção cultural.

Vamos tirar o seu projeto do papel?

Fale com a nossa equipe e receba um orçamento personalizado.

Solicitar orçamento
← Voltar ao blog